Por que escrever sobre a própria vida não é vaidade

Essa objeção aparece com frequência. Às vezes o cliente diz em voz alta, às vezes dá para perceber nas entrelinhas: quem sou eu para escrever um livro sobre mim mesmo?
A pergunta carrega uma confusão antiga entre registro e exibicionismo. Como se contar a própria história fosse um gesto de arrogância, uma afirmação de que a sua vida vale mais do que a dos outros.
Não é isso.
Escrever sobre a própria vida é, antes de tudo, um gesto de responsabilidade. Com a memória da família, com as pessoas que vieram antes e com as que vão vir depois. Toda história carrega informação que não existe em nenhum outro lugar: o nome da rua onde a avó cresceu, o motivo pelo qual a família mudou de cidade, o contexto de uma decisão que mudou tudo. Quando essa história não é registrada, ela simplesmente desaparece.
Há também uma dimensão pessoal que não deve ser subestimada. Organizar a própria trajetória em narrativa é um exercício de compreensão. Não de justificativa, não de autopiedade, mas de entendimento. Por que fiz o que fiz. O que aprendi. O que teria feito diferente. Esse processo tem um valor que vai além do livro.
A vaidade seria escrever para impressionar. Escrever para preservar é algo muito diferente.